sábado, 11 de setembro de 2010
Nomeie um sonho aqui
A noite já foi mais amável. Os sonhos de envelhecer divido apenas entre meu consumido coração e o cérebro que me escapa vez em quando. Essa é uma conexão única em que o cérebro me ajuda - ela, que não se disvincula do âmago - e ele me faltando essa informação. Há tempos me esqueço sem esquecê-la. Nós fomos pegos num sonho desgastado onde o que era velho não éramos nós, era, apenas, um sonho velho de um único velho. (...)
Armas de fogo
Estamos em quatro. Pilhas de livros e montes de papeis em branco assistem ao digladio de quatro pessoas armadas com suas infames perguntas infantis. Entre a busca por um pouco mais de experiência a cada nova resposta há alguém desconfortável: um ser ainda novo, mas convicto da verdade de ser pleno com seu próprio ser. Ele usaria a arma mais graúda num combate, a pergunta já foi disparada à pólvora e lhe falta o escudo na ponta da língua. Touché! Retrocedeu.
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
A cigana e o florista
Únicas palavras
- Olhe, Sr. Desespero, não me leve a mal, mas com tudo o que aconteceu, o senhor não deveria se incomodar e nem, muito menos, bater na minha porta às duas da manhã...
- (...)
- Acontece que o senhor não pode se culpar pelo Sr. Amor, ele é quem me faz sofrer.
- (...)
- Dizem que a cura para a doença do sofrimento é uma reza forte feita pela Madame Liberdade, é verdade?
- (...)
- O teu silêncio me endoida – aliás, falando nisso – vou visitar a Dra. Loucura, ela costuma te atravessar as entranhas e te analisar a fundo. Ela é maluca que cuida dos maiores malucos. Não é maluco isso?
- (...)
- Boa tarde, Dra., dizem que a senhora é doida, mas não me importo... eu sofro da doença do sofrimento, tenho rachões no coração...
- (...)
- Sinto que as poucas melhoras de quando visitava o Sr. Amor acabou... agora sou nada novamente. E não sinto vontade de me levantar, sabe? Eu nunca fui bonito, mas lá – lá na casa do Sr. Amor, eu me sentia bem, pelo menos era disposto a me levantar noutro dia. Mas, e agora? O que tenho?
- Você tem medo dos castigos da Mãe Existência.
- (...)
- Acontece que o senhor não pode se culpar pelo Sr. Amor, ele é quem me faz sofrer.
- (...)
- Dizem que a cura para a doença do sofrimento é uma reza forte feita pela Madame Liberdade, é verdade?
- (...)
- O teu silêncio me endoida – aliás, falando nisso – vou visitar a Dra. Loucura, ela costuma te atravessar as entranhas e te analisar a fundo. Ela é maluca que cuida dos maiores malucos. Não é maluco isso?
- (...)
- Boa tarde, Dra., dizem que a senhora é doida, mas não me importo... eu sofro da doença do sofrimento, tenho rachões no coração...
- (...)
- Sinto que as poucas melhoras de quando visitava o Sr. Amor acabou... agora sou nada novamente. E não sinto vontade de me levantar, sabe? Eu nunca fui bonito, mas lá – lá na casa do Sr. Amor, eu me sentia bem, pelo menos era disposto a me levantar noutro dia. Mas, e agora? O que tenho?
- Você tem medo dos castigos da Mãe Existência.
sábado, 4 de setembro de 2010
A borboleta púrpura e o indolente
O vento foi formidável para que a borboleta cor-de-rubi adentrasse entre o trigo e empoleirasse numa lâmpada cor-de-prata. A lâmpada, ou melhor, o gênio cor-de-céu, despertara. A sonolência dele se despedira após o singelo ato da pequena voadora... ela lhe trouxe luz! Trouxe também a esperança cor-de-folha para que seu pensamento se vinculasse à liberdade. Estamos livres! Numa aquarela, o roxo se misturou ao azul e o (meu) amor não era mais vermelho. Quem me dera ter três pedidos e não ser o gênio da lâmpada. Poderia o gênio ter um pedido? Ele a pediria com uma escolha certa de ser feliz.
(à psicologia que, em mim, se empoleirou)
(à psicologia que, em mim, se empoleirou)
Perdendo o toque
Chegou abril e, com toda a efervescência de um feriado prolongado, fez-se poesia. As palpitações centradas de um coração ousado expunham minhas emoções: ali está ela. O que separa minha poesia da tua música é apenas uma curta estrada de vinte quilômetros contados pela minha ansiedade e euforia. Além de números, entretanto, o meu retrocesso ababela todas as convicções. Queria eu não ser ousado e amar: tentei, assim, me curar, mas só remediei o insanável. O problema é que a estrada se prolongou dentro de mim e fui perdendo o toque. Incurado, portanto, continuei a sofrer. Fui vivendo meus confrontos e ilusões até perceber o quão vil minha vida é. Sem ti. Senti.
Sobre levitar
Ele anda deprimido com uma tristeza que entranha em quem vê e faz danar a mais bela alegria que há em nós. Ele também percebeu que sua idade se tornou oponente aos sentimentos que tinha no peito. Acho que está endoidando. A sua mulher, Amparo, de tanta coisa ruim, se acostumou... vive com os olhos grelados prestando atenção nos minúsculos detalhes de um fio de lã. E se, por acaso, alguém chamá-la, mande esperar duas horas pra que ela venha perceber e mais trinta minutos para vir atender. Ele saiu do emprego e não sai de casa, entre a sala e a garagem a gente vê o percurso feito por um ser que só se move, não parece pensar. O dedilhado é de praxe, aprendido de cor, não tem como ela esquecer. Parecem-me monstros alienados da terra dos vividos... ela vive circundando a aliança de casamento: eles já foram felizes e, enquanto a mente dela ciranda entre o passado, ele foca no futuro. Carrega madeira para a garagem e as aplaina, fazendo, assim, pernas de pau. Ele acena e ri e se faz ser feliz. Parecem dois anjos levitando, ele tapando o sol com os braços abertos parecendo voar e Amparo amparada pelo divino matrimônio e entre tules e tecidos. Ela procurou o passado. Ele procurou as pernas de pau. Esses são refúgios achados.
Assinar:
Postagens (Atom)