terça-feira, 5 de outubro de 2010

A garota de um olho só

Ela ainda os tinha. Eram grandes e repletos de cílios. Eram ávidos: o direito, pelas belezas, pelo sorrir. Já o esquerdo, entretanto, mirava a doença e o ácido que te corrói aos sete palmos do chão. Os olhos novos mofam e ela, coitada, perdeu um pros ácaros. O direito. Eu, que não queria ver a vala na face dela, lhe dei o meu.
- Àquela garota, meu olho direito, pensei.
Dei. E, hesitando por pensar em perder de novo, ela aceitou. O fato é que ela estava certa. Agora somos duas valas repletas de engano.

sábado, 25 de setembro de 2010

Cinzas

Sonhei que era sonhador. Que não sentia dor.
Eu, poeta aniquilado, me permiti te amar por nove anos. Sonhei emaranhar-me em ti. Que estava errado, que certo, que coisa-e-tal. Queimei teu nome! Me basta reconhecer-te pelo cheiro, pela rebeldia, pelo cantar... sou homem condenado ao não amar. Sou poeta carecido de corpos, de inspiração. Sou devoto da permissão permitida por mim de livre ser.

domingo, 19 de setembro de 2010

A saboneteira vista de baixo

“Eu não vou mudar não, eu vou ficar são mesmo se for só. Não vou ceder! Deus vai dar aval, sim: o mal vai ter fim e no final, assim, calado, eu sei que vou ser coroado rei de mim.”

De onde vem a calma - Marcelo



A cabeça atinada me fez trancar a porta de trava quebrada do banheiro e me trancar lá dentro. Te desatina, cabeça, desatina-me! Me faz parar de tremer. Me deitei aos pés da pia e procurei companhia – mas, veja, não há aranhas – há, entretanto, uma saboneteira. Toda saboneteira vista de baixo é a ponta da tromba de um elefante. É como se estivesse num safári: numa areia movediça, as idéias que tanto se debateram, agora estão atoladas. Eu, que desrosqueei o alargador, tirei o escapulário, desprendi a pulseira e estava pronto a passar a noite ali, estou são. O único problema é que elefantes não conseguem me ajudar a pôr a pulseira de volta. (...)



quinta-feira, 16 de setembro de 2010

domingo, 12 de setembro de 2010

Poesia urbana

Andamos feito gatos em guetos. Somos astros de um show onde a lua nos é antensiosamente nossa. Desossamos a arte; devoramos o verso; desembolamos as vísceras da rima e as saboreamos com uma dose da tua voz introspectiva com artimanhas de uma felina. Viramos lata, cruzamos ruas e, por fim, nos entocamos numa rua sem saída. Findamos o espetáculo.

A morte de Jacinto


O soprar dos ventos nos traiu. O que o desatento causa? Oh, lírio, meu delírio. Se soubesse: o disco eu não jogaria! Morreste me admirando, mas, e eu? Sou a ordem ao rir da brisa ocidental. O vilão venceu, vida vil. Átropos há de dar aval, sim.